Tombar para não demolir

Casa de Ruy Ohtake sob ameaça em SP

  (Foto: Ines Bonduki/Folhapress )

Residência Paulo Bittencourt Filho, projetada em 1972 por Ruy Ohtake, situada na Rua Dom Henrique nº 507, Jardim Lusitânia

Corria o ano de 2011 quando o advogado Emerson Scapatricio decidiu investir 2,7 milhões de reais na compra de uma casa da qual não gostava. Apesar da boa localização – o Jardim Lusitânia, na Zona Sul de São Paulo – e dos generosos 420 m² de área, o comprador se dizia insatisfeito: “o pé-direito é baixo e a há poucas janelas”, pensava. Seu propósito, desde que pousou os olhos na morada de concreto, era colocá-la no chão. Uma vez que restassem ali apenas o lote e o endereço, o advogado poderia, finalmente, erguer o lar de seus sonhos, uma casa em estilo neoclássico, como as demais construções do bairro, segundo ele.

Mas logo o sonho azedou. Isso porque Scapatricio não comprara qualquer casa. A construção que até hoje ele sonha demolir é a Residência Paulo Bittencourt Filho, projetada em 1972, por Ruy Ohtake. Assim, o pedido de demolição enviado à prefeitura levou o Conpresp, o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo, a abrir um processo de tombamento dessa e de outras três residências modernistas assinadas pelo arquiteto.

Se a morada passar a ser considerada patrimônio arquitetônico da cidade, restarão para Scapatricio apenas duas opções: viver na casa projetada pelo famoso arquiteto, ou tentar vendê-la. “Acabei com um mico nas mãos”, lamenta-se à imprensa.

  (Foto: divulgação)

Residência Paulo Bittencourt Filho fotografada na década de 1970

Do outro lado, o autor do desenho alegra-se com o possível resgate do projeto do qual se orgulha. “Aquela casa foi feita sob encomenda para o Paulo [Bittencourt Filho], e lá ele viveu sem queixas por mais de 30 anos”, conta. “Paulo apenas decidiu desfazer-se da casa, pois com os quatro meninos crescidos e emancipados, achou melhor mudar-se com a esposa para um lar menor”, explica. Fiel, o cliente não hesitou: antes de colocar a casa a venda, pediu a benção daquele que a projetara.

“É um absurdo que os órgãos responsáveis pelo tombamento ajam como bombeiros, apenas resgatando o patrimônio ameaçado, em vez de tratarem de preservá-lo muito antes de o perigo de degradação se apresentar”, opina o arquiteto. Segundo ele, o serviço prestado por tais instituições seria de mais valia caso fosse preventivo. Ohtake sugere que seja feito um levantamento constante das obras arquitetônicas culturalmente relevantes, de modo que o processo de tombamento possa ser iniciado, também, em momentos de calmaria.

Além disso, ele sugere que o estado busque estimular ativamente a compra de imóveis tombados. Para isso, seria preciso tornar as propriedades atraentes. “Por que não isentar tais imóveis do IPTU ou proporcionar uma ‘bolsa manutenção’ como incentivo?”, indaga. “Neste país, ter uma propriedade tombada é ter um problema nas mãos; não deveria ser assim”, critica .

E ele não repousou o alfinete. “O Emerson não foi inteligente. Por que comprou a casa se não gostava dela?”, desabafa. “A morada fica numa área de zoneamento estritamente residencial, ou seja, demolindo a minha casa e construindo outra ele não poderia ter nem mesmo ganho de área, pois eu ergui a construção dentro dos limites permitidos”, aponta o viés técnico. “Só me resta um conselho: venda!”.

Fonte: Casa Vogue

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